Conteúdo educacional. Não é recomendação de investimento.
PrólogoIniciante
O feijão de Biu e o roçado de Toinho
Prólogo, capítulo 1 de 5. Biu, Toinho e a cidade onde vivem são inventados. Os valores da história são hipotéticos, escolhidos só para ilustrar o raciocínio.
Imagine que você tem duas formas de usar o seu dinheiro. A primeira rende mais em quase todos os anos. A segunda rende um pouco menos, mas raramente decepciona. Qual você escolhe?
A maioria responde depressa, e é aí que mora o problema. A resposta certa depende de uma pergunta que quase ninguém faz antes de escolher: o que acontece comigo no ano em que a primeira opção der errado?
Este Prólogo conta a história de dois compadres que aprenderam a fazer essa pergunta do jeito mais caro, um susto de cada vez. Cada susto ensina uma forma diferente de diversificar.
Dois compadres, duas apostas
Severino, o Biu, e Antônio, o Toinho, cresceram na mesma rua de uma cidade pequena do sertão. Batizaram os filhos um do outro e herdaram, cada um, um pedaço de terra do mesmo tamanho, cerca com cerca.
Biu é o melhor agricultor da cidade. Escolhe semente como quem escolhe parente, sabe a hora exata de plantar e há anos repara numa coisa: o feijão é o que paga melhor. Então fez o que qualquer pessoa sensata faria com essa informação e plantou o roçado inteiro de feijão. Comprou semente em quantidade, mais barata, e aprendeu cada manha da lavoura. Não era teimosia. Era especialização, e especialização costuma dar dinheiro.
Toinho é mais desconfiado. Plantou feijão também, mas só em parte da terra. No resto pôs milho e um pouco de palma, e ainda criava meia dúzia de cabras atrás de casa. Dava mais trabalho, e ele sabia que estava abrindo mão de dinheiro: cada palmo de milho era um palmo a menos do feijão que pagava melhor.
— Tu planta de tudo e não fica bom em nada, compadre — brincava Biu.
— E tu bota a vida inteira numa saca só — devolvia Toinho.
Os dois tinham alguma razão. É isso que torna a história interessante.
O ano em que Biu ganhou
No primeiro ano choveu na medida, o feijão carregou e o preço estava bom. Biu fez a melhor colheita da sua vida. Toinho também foi bem, mas ganhou visivelmente menos, porque só uma parte do roçado estava no feijão.
Na bodega, a conversa era uma só: Biu estava certo. E estava mesmo, naquele ano. Diversificar tem custo. Quem espalha o esforço entre várias coisas quase sempre deixa de ganhar o máximo possível quando a melhor delas vai bem. Qualquer conversa honesta sobre diversificação precisa começar admitindo isso.
O ano da praga
No segundo ano, uma praga atacou os feijoais da região. A chuva veio igual, a terra era a mesma, Biu trabalhou como sempre. Mas a praga não quis saber de competência e levou quase toda a colheita.
Toinho também perdeu o feijão dele. Só que o milho, a palma e as cabras não tinham nada a ver com aquela praga, e seguiram do jeito que estavam.
Veja os dois anos lado a lado. Os valores são hipotéticos e representam o que cada um apurou com a produção.
| Biu (só feijão) | Toinho (feijão, milho, palma e cabras) | |
|---|---|---|
| Ano bom | R$ 20.000 | R$ 15.000 |
| Ano da praga | R$ 3.000 | R$ 8.200 |
| Soma dos dois anos | R$ 23.000 | R$ 23.200 |
Hipóteses: no roçado de Toinho, o feijão ocupa 40% e rende R$ 8.000 no ano bom; o resto rende R$ 7.000. A praga leva 85% de todo feijão e não afeta o resto (R$ 1.200 + R$ 7.000 = R$ 8.200).
Repare na última linha. Somados os dois anos, os compadres terminaram praticamente empatados. Quem olhasse só o total diria que as estratégias se equivalem.
Mas ninguém vive da soma de dois anos. A família de Biu precisava comer, pagar a luz e comprar semente no ano da praga, e R$ 3.000 não davam para isso. Biu vendeu a moto e pegou semente emprestada com o próprio Toinho para plantar de novo. Toinho, com bem menos do que no ano anterior, apertou o cinto e seguiu em frente.
A média esconde o caminho. Duas estratégias com resultados parecidos no papel podem levar a vidas muito diferentes, porque uma delas tem anos em que a pessoa simplesmente não aguenta.
O que Toinho fez, com nome técnico
O que Toinho praticava tem nome: diversificação dentro da mesma classe. Todas as atividades dele eram produção rural, mas cada uma podia ser atingida por problemas diferentes. A praga do feijão era um risco específico, isto é, um risco que atinge um item e deixa os outros em paz. Contra esse tipo de risco, espalhar funciona muito bem. É a ideia que o material educacional do Portal do Investidor resume no velho ditado de não pôr todos os ovos na mesma cesta (Portal do Investidor, Módulo 6, p. 22).
Nos investimentos, a lógica é a mesma:
- quem tem as economias aplicadas num único título depende inteiramente de quem o emitiu;
- quem tem ações de uma única empresa depende do destino daquela empresa;
- quem distribui o dinheiro entre vários títulos ou várias empresas faz com que um problema isolado pese só sobre uma parte do patrimônio.
Diversificar não aumenta o ganho do ano bom. O que ela faz é tornar o ano ruim suportável.
O que a história ainda não resolve
Seria cômodo encerrar aqui com Toinho de herói. Só que a proteção dele tinha um limite, e ele ainda não sabia.
A praga atacou só o feijão. Mas o milho, a palma e as cabras de Toinho dependiam de uma mesma coisa, que naquele ano tinha vindo em boa quantidade: a chuva.
Biu, que não é bobo, aprendeu a lição e decidiu fazer como o compadre. No ano seguinte, os dois roçados amanheceram parecidos, cada um com um pouco de tudo.
Foi exatamente nesse ano que não choveu.