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Rico Dinheiro

Ficha educativa. Não é recomendação de compra; condições, taxas e regras mudam — confira a data de revisão e as fontes.

Renda fixaIniciante

Poupança

Por Kleber Rebouças (com apoio do Claude) · Publicado em · Próxima revisão: 01 de novembro de 2027

Ficha técnica · revisada em 01 de novembro de 2026
TipoDepósito de poupança
EmissorInstituição financeira autorizada a captar depósitos de poupança
RemuneraçãoTR + 0,5% ao mês quando a meta Selic passa de 8,5% ao ano; TR + 70% da meta Selic, mensalizada, nos demais casos (depósitos desde 04/05/2012)
IndexadoresTR, Selic
GarantiaFGC
Risco principalRender menos que a inflação; o risco da instituição é coberto pelo FGC até os limites
Investimento mínimoDefinido por cada instituição; em geral, baixo
LiquidezSaque a qualquer momento, mas o rendimento só é creditado no aniversário mensal do depósito
PrazoSem vencimento
CustosSem taxa de administração ou de custódia
TributaçãoIsenta de imposto de renda para pessoa física (Lei 8.981/1995, art. 68, III)
SituaçãoAtivo

Regras conferidas em 01/11/2026. A simulação usa dados históricos do Banco Central e não é previsão; as premissas estão descritas no exemplo.

Quase todo mundo começa pela poupança. Ela não pede corretora, não cobra taxa, não desconta imposto e aceita qualquer valor. É fácil confundir essa simplicidade com rendimento garantido, mas a poupança garante só a regra de cálculo, não o resultado. Essa regra, aliás, muda conforme a taxa básica de juros, e isso tem efeitos práticos para quem guarda dinheiro nela.

Como funciona

O rendimento da poupança é fixado em lei (Lei 8.177/1991, art. 12). Para os depósitos feitos desde 04/05/2012, ele tem duas partes:

  • Remuneração básica: a TR (Taxa Referencial), calculada e divulgada pelo Banco Central. Com juros baixos, a TR costuma ficar em zero; com juros altos, ela fica positiva. No fim de outubro de 2026, com a meta Selic em 13,75% ao ano, a TR mensal variava entre 0,10% e 0,17% (BCB, série 226).
  • Remuneração adicional, que depende da meta Selic definida pelo Copom:
    • meta acima de 8,5% ao ano: 0,5% ao mês (cerca de 6,17% ao ano);
    • meta de 8,5% ou menos: 70% da meta, convertida em taxa mensal.

O gráfico abaixo mostra a regra em ação. Até o gatilho de 8,5%, a poupança acompanha a Selic. Acima dele, para de subir, e a distância para uma aplicação que rende a Selic aumenta.

Gráfico de linhas com a remuneração anual, de 0% a 14%, em função da meta Selic, de 2% a 16% ao ano. Com a meta até 8,5%, a poupança rende 70% da Selic mais a TR; acima de 8,5%, rende 0,5% ao mês, ou 6,17% ao ano, mais a TR. Uma aplicação que rende 100% da Selic, depois do imposto de renda, rende 85% da Selic no prazo acima de dois anos e 77,5% até seis meses. Com a meta em 13,75%, isso dá 11,69% e 10,66% ao ano, contra 6,17% mais a TR na poupança. A distância entre a poupança e a Selic líquida é pequena com juros baixos e cresce quando a Selic passa de 8,5%. A TR foi suposta zero; quando positiva, ela soma à poupança. Custódia e diferenças entre a Selic e a meta foram desconsideradas.

Três detalhes operacionais pesam no resultado:

  • Aniversário. Cada depósito rende por mês completo, contado a partir do dia em que entrou na conta. O rendimento é creditado nessa data, e o cálculo usa o menor saldo do período (art. 12, §§ 1º a 4º). Quem saca um dia antes do aniversário não recebe nada pelo mês em curso daquele dinheiro. Depósitos feitos nos dias 29, 30 e 31 fazem aniversário no dia 1º do mês seguinte.
  • Poupança antiga. O que foi depositado até 03/05/2012 continua rendendo TR + 0,5% ao mês, qualquer que seja a Selic (Lei 12.703/2012, art. 2º). Os bancos separam os dois saldos.
  • Imposto. Para pessoa física, o rendimento é isento de imposto de renda (Lei 8.981/1995, art. 68, III).

Riscos

A poupança costuma ser apresentada como aplicação sem risco. A descrição é incompleta: ela reduz alguns riscos, mas não elimina outros.

Inflação. É o risco principal. A regra fixa o rendimento nominal, não o real. Se a poupança render 6% num ano em que a inflação chega a 8%, haverá mais reais na conta, mas eles comprarão menos. Há anos em que isso aconteceu de fato; a seção seguinte mostra quantos foram e o que custaram.

Custo de oportunidade. Com a Selic acima de 8,5%, a poupança fica bem abaixo de aplicações conservadoras que acompanham a Selic, mesmo depois do imposto que elas pagam. Com a meta em 13,75%, uma aplicação que rende 100% da Selic entrega cerca de 10,7% ao ano líquidos no prazo mais curto da tabela do IR e 11,7% no mais longo. A poupança entrega 6,17% mais a TR. Com juros baixos, a isenção de imposto encurta a distância, mas não a elimina: com a meta em 6%, a poupança rende 4,20% ao ano, contra 4,65% a 5,10% líquidos na aplicação que rende a Selic.

Instituição. Se o banco quebrar, o FGC cobre até R$ 250 mil por CPF por instituição ou conglomerado, com teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos para o total recebido em garantias (FGC, consulta em 01/11/2026). Acima desses limites, o risco é do depositante. Mesmo dentro deles, a garantia não é imediata: o pagamento depende da decretação da intervenção ou liquidação e do processo do FGC. O capítulo 3 do Prólogo, Quem pagava mais que o banco, mostra por que esse detalhe importa.

Liquidez parcial. O saque é imediato, mas sair antes do aniversário custa o rendimento do mês.

Os anos em que a poupança perdeu para a inflação

Imagine um depósito feito em 1º de janeiro e sacado em 31 de dezembro, ano após ano, desde o primeiro ano completo do Real. Em 6 dos 31 anos, de 1995 a 2025, a poupança terminou abaixo do IPCA: 2002, 2013, 2015, 2019, 2020 e 2021 (BCB, séries 25, 195, 433 e 4390). É quase um ano em cada cinco.

Gráfico de barras com o rendimento real, descontado o IPCA, de cada ano de 1995 a 2025, para quem depositou na poupança em 1º de janeiro e sacou em 31 de dezembro; pontos mostram uma aplicação que rende 100% da Selic, com imposto de renda de 20%. A poupança rendeu menos que a inflação em 6 dos 31 anos: 2002, 2013, 2015, 2019, 2020 e 2021. As maiores perdas foram em 2021 (−6,4%), 2002 (−3,0%) e 2015 (−2,3%). A aplicação na Selic ficou abaixo da inflação em 3 anos: 2015, 2020 e 2021. Nos primeiros anos do Real, os dois rendimentos reais foram altos; a partir dos anos 2000, ficaram menores. Dados do Banco Central, extraídos em 01/11/2026.

Em 2013 e 2019, a perda foi de menos de 0,1%. Nos outros quatro anos, ela pesou:

Ano IPCA Rendimento real da poupança Rendimento real de 100% da Selic, com IR de 20%
2002 12,53% −3,01% 2,49%
2015 10,67% −2,35% −0,04%
2020 4,52% −2,30% −2,21%
2021 10,06% −6,43% −5,92%

Os anos se dividem em dois tipos. Em 2002, 2015 e 2021, a inflação passou de 10% e superou os juros que a poupança paga. Em 2020, a inflação foi moderada, mas os juros estavam tão baixos que a regra dos 70% da Selic não bastou para cobri-la.

Por que uma perda pesa mais que um ganho do mesmo tamanho. Quem perde 6,43% do poder de compra precisa ganhar 6,87% para voltar ao ponto de partida, porque o ganho incide sobre uma base menor. No ritmo médio da poupança na simulação do Exemplo (1,67% ao ano acima da inflação), isso leva cerca de quatro anos. Um único ano ruim apaga, sozinho, o ganho real de vários anos bons.

O que a comparação com a Selic ensina. A aplicação atrelada à Selic também perdeu da inflação, em 3 dos 31 anos. Nenhuma aplicação conservadora garante ganho real todo ano. A diferença é de frequência e de tamanho: a poupança perdeu mais vezes e, em todos os anos em que ficou abaixo da inflação, rendeu menos que a Selic. A comparação considera depósitos novos em cada ano; saldos antigos, anteriores a maio de 2012, seguem a regra antiga e têm resultado diferente.

Papel na alocação

A poupança cumpre bem uma função estreita: guardar valores pequenos por alguns meses, com acesso fácil e sem custo. Serve para quem ainda está formando o primeiro colchão e não quer abrir conta em outro lugar. O rendimento é mais bem aproveitado quando os saques coincidem com as datas de aniversário. Para prazos de poucas semanas, ela não acrescenta rendimento: o depósito que não completa um mês não rende nada.

Como base da reserva de emergência ou de qualquer dinheiro guardado por anos, ela costuma ser superada por títulos públicos e bancários que acompanham a Selic, sobretudo quando os juros estão altos. A comparação entre essas alternativas é o assunto das próximas fichas, a começar pelo Tesouro Reserva e pelo Tesouro Selic.

Mesmo com rendimento modesto, a poupança tem uma qualidade: é simples, e a simplicidade ajuda a criar o hábito de guardar dinheiro todo mês. O hábito vale mais que alguns décimos de rendimento, desde que o dinheiro não fique ali por inércia depois de o hábito estar formado.

A lição que a poupança ensina vale para todo o Guia: segurança, liquidez e rentabilidade são características diferentes. Uma aplicação pode ser simples e protegida pelo FGC sem ser a melhor escolha para acumular patrimônio.

Exemplo

Quanto teria rendido guardar todo mês na poupança desde o Plano Real? A simulação usa dados históricos do Banco Central. Ela supõe um depósito mensal de julho de 1994 a setembro de 2026, de valor equivalente a R$ 100 em reais de hoje, reajustado uma vez por ano pelo IPCA. Foram 387 depósitos: o primeiro, de R$ 11,14 em 1994, e o último, de R$ 99,44.

O mesmo dinheiro foi acompanhado em três trajetórias, todas em reais de setembro de 2026:

  • Só a inflação: a soma dos depósitos corrigidos pelo IPCA, ou seja, o mínimo para não perder poder de compra.
  • Poupança: o rendimento efetivo de cada mês. Os depósitos até 1º de maio de 2012 seguem a regra antiga, e os posteriores, a regra nova.
  • 100% da Selic: uma aplicação hipotética que rende a Selic de cada mês. Dela saem a taxa de custódia da B3 (0,20% ao ano sobre o saldo acima de R$ 10 mil em valores de hoje) e o imposto de renda pela tabela atual. É o que, desde 2002, se aproxima do Tesouro Selic.

Gráfico de linhas, de julho de 1994 a setembro de 2026, com o saldo, em reais de setembro de 2026, de um depósito mensal equivalente a R$ 100 de hoje, reajustado todo ano pelo IPCA, com 387 depósitos. A linha tracejada mostra o total depositado corrigido pela inflação: R$ 37.533. Na poupança, o saldo final é de R$ 49.570. Numa aplicação hipotética que rende 100% da Selic, depois da custódia e do imposto de renda, é de R$ 95.601. A poupança ficou acima da inflação desde os primeiros meses, mas a distância para a Selic cresceu ao longo dos anos. Dados do Banco Central, extraídos em 01/11/2026.

Data, tempo decorrido e total depositado (nominal) Só a inflação Poupança 100% da Selic, líquido de custódia e IR
Dez/2002
8,5 anos
R$ 1.872 depositados
R$ 9.741 R$ 11.279 R$ 15.968
Dez/2010
16,5 anos
R$ 5.067 depositados
R$ 19.078 R$ 23.873 R$ 40.499
Dez/2018
24,5 anos
R$ 10.117 depositados
R$ 28.437 R$ 35.674 R$ 64.621
Set/2026
32,25 anos
R$ 17.620 depositados
R$ 37.533 R$ 49.570 R$ 95.601
Ganho real equivalente — 1,67% ao ano 5,26% ao ano

O total depositado está em valores da época, sem correção. As demais colunas estão em reais de setembro de 2026.

Em 32 anos, a poupança preservou o poder de compra e acrescentou cerca de R$ 12 mil, um ganho real equivalente a 1,67% ao ano. A aplicação na Selic, já descontados a custódia e o imposto, terminou com quase o dobro: ganho real de 5,26% ao ano. Sem a custódia, chegaria a R$ 97.141; a taxa custou cerca de R$ 1,5 mil em 32 anos. A diferença não veio de um ano excepcional. Ela se acumulou mês a mês, o que é próprio dos juros compostos. O caminho também teve recuos, como os de 2020 e 2021, vistos em Riscos.

O que a simulação não mostra. É um retrato do passado, não uma previsão. As premissas simplificam a realidade:

  • o imposto da Selic segue a tabela de hoje, embora as regras tenham mudado ao longo do período;
  • a custódia segue a regra de hoje: provisionada todo mês e paga só no resgate, com a isenção de R$ 10 mil corrigida pela inflação para o passado (até 2024 a B3 cobrava a taxa a cada semestre, e o valor e as isenções mudaram ao longo do tempo);
  • o imposto incide sobre o ganho bruto: a base é a diferença entre o valor de resgate, líquido só do IOF, e o valor aplicado, sem descontar a custódia (IN RFB 1.585/2015, art. 46, § 1º);
  • todos os depósitos entram no dia 1º, data de aniversário da poupança;
  • como o depósito é reajustado só uma vez por ano, seu valor em reais de hoje cai um pouco ao longo de cada ano, até o reajuste seguinte.

Um detalhe prático completa o exemplo. Num depósito de R$ 10.000 com rendimento hipotético de 0,65% ao mês, sacar um dia antes do 12º aniversário custa R$ 69,89, o rendimento do último mês inteiro. Se o dinheiro tiver de sair da poupança, convém esperar a data de aniversário.

A próxima ficha mostra o Tesouro Reserva: como uma aplicação que acompanha a Selic pode oferecer acesso quase tão simples quanto o da poupança, o que muda em imposto e custos e por que um título público não depende do FGC.

#Renda fixa#Juros#Inflação

Fontes

  1. Brasil. Lei nº 8.177, de 01/03/1991, art. 12 (remuneração dos depósitos de poupança; redação da Lei nº 12.703/2012) (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)
  2. Brasil. Lei nº 12.703, de 07/08/2012, art. 2º (regra dos depósitos feitos até 03/05/2012) (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)
  3. Brasil. Lei nº 8.981, de 20/01/1995, art. 68, III (isenção de imposto de renda para pessoa física) (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)
  4. Receita Federal. Instrução Normativa RFB nº 1.585, de 31/08/2015, art. 46 (alíquotas e base de cálculo do IR sobre aplicações de renda fixa) (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)
  5. B3. Tarifas de Tesouro Direto (taxa de custódia de 0,20% a.a.; isenção do Tesouro Selic até R$ 10 mil) (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)
  6. Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Sobre a garantia FGC: produtos cobertos e limites (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)
  7. Banco Central do Brasil. Taxas de juros básicas: histórico das metas para a taxa Selic definidas pelo Copom (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)
  8. Banco Central do Brasil. Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): séries 25 e 195 (rentabilidade da poupança), 226 (TR), 433 (IPCA) e 4390 (Selic mensal) (abre em nova aba) (acesso em 01 de novembro de 2026)

Revisão

  • Publicada em
  • Próxima revisão prevista:

Esta ficha descreve um produto genérico, com fins educacionais. Não é recomendação de compra ou venda nem considera a sua situação. Taxas, regras e tributação mudam e variam entre emissores e distribuidores: confira as condições na instituição antes de investir. Veja o Aviso legal.

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